quinta-feira, 28 de outubro de 2010

REFLEXÕES DE UM COTIDIANO NA SOCIEDADE

Às vezes, tenho medo de começar a postar no meu blog sem preparar um texto antes, pois sei que o que eu escrever nele, vou deixar gravado do jeito "que veio ao mundo". Queria, sinceramente, que este texto ganhasse o mundo virtual e fosse parar nas mãos de muitas pessoas que, pensando como eu, não se sinta como eu me sinto, uma voz perdida no meio do deserto da mediocridade humana, assim como também fosse parar nas mãos de quem não pensa assim, mas que tivesse a hombridade de discordar do que eu penso e dizer por quê, pois até mesmo uma discordância é mais bem-vinda do que um bando de "vacas-de-presépio" balançando suas cabeças para cima e para baixo ou meneando para os lados, sem dizer ao menos se entendeu ou não o que foi dito.

Vamos, agora, às minhas reflexões.

Sempre que vou ao supermercado, sinto como se eu estivesse indo a uma sessão de tortura terapêutica. Não é por causa do dinheiro contado e a necessidade ser mais cara do que aquilo que tenho no bolso, pois já me acostumei a isso e vejo que assim é melhor, pois "não gasto naquilo que não é pão...". A sessão de tortura começa exatamente NO FINAL DAS COMPRAS, mais particularmente NA HORA DE PAGAR. Volto a dizer, NÃO SE REFERE AOS PREÇOS DAS COISAS, mas sim na atitude de algumas pessoas que LARGAM NOS CAIXAS PRODUTOS PERECÍVEIS, COMO CARNES, PRODUTOS LÁCTEOS, MARGARINAS e demais coisas QUE PRECISAM DE REFRIGERAÇÃO. Quero que isso ganhe o mundo, se espalhe pelos quatro cantos desse universo cibernético, seja traduzido para outras línguas e dialetos, que alcance o maior número possível de gente pela Rede Internacional. Pois, se um indivíduo desses compra um desses produtos e estiver ESTRAGADO, ELE VAI PROCESSAR O MERCADO E VAI GANHAR!!! Mas, sabe por que estava estragado? PORQUE ALGUÉM, COMO ELE, DEIXOU A MERCADORIA PERECÍVEL FORA DO REFRIGERADOR, E ELA APODRECEU!!!

Não entendo, E NÃO QUERO ENTENDER o que se passa na cabeça dessa pessoa, só sei que isso ME REVOLTA, ME TIRA DO SÉRIO e já tive o descabimento de fazer uma senhora passar vergonha (na verdade, eu é que me senti envergonhado por minha atitude), ao perguntar-lhe por quê não estava levando aquelas quatro bandejas de carne. Adivinha quem virou o "bobo-da-corte"? Pois é, se a gente se propõe a mudar o mundo e a fazer o que é correto, a gente passa a ser o "bobo-da-corte", o "pagador-de-mico"... Mas é uma sensação esquisita: se ajo, pareço um bobo, mas fico com minha consciência tranquila; se me calo, não pareço um bobo, mas minha consciência fica formigando, me cobrando uma atitude que deixei de tomar por pura covardia, omissão e conivência.

Se você ler, esteja à vontade para comentar, discordar e até zombar de mim. Eu postei esse texto com esse propósito mesmo.

sábado, 2 de outubro de 2010

EU, O PRÓDIGO

Você pode me chamar por qualquer nome; prefiro me apresentar como as Escrituras me chamam: o Pródigo. Antes de contar minha história, você sabe o que é ser um "pródigo"? Por favor, não confunda com "prodígio" (risos). Não, não sou um exemplo para ninguém. Pelo menos, não era quando resolvi sair da casa do meu pai. Ele tentou, inutilmente, me manter ao seu lado, cuidando dos animais, coisa que eu gostava de fazer, de verdade.

Sentir o cheiro do gado, sentir a textura dos pelos das ovelhas e carneiros, ouvir o balido das cabras e bodes, brincar com os cães. Mas tudo isso começou a perder a graça para mim quando alguns parentes vieram da cidade e contaram as coisas "legais" que existiam nela. Isso despertou a curiosidade em mim. Ela foi se tornando cada vez mais forte, até o dia em que disse ao meu pai:
- Pai, quero viajar à cidade, para ver o que acontece lá. De repente, quero até mesmo começar um novo negócio lá, ampliar os horizontes da nossa fazenda.

Meu pai, entretanto, respondeu preocupado:
- Filho, sei que você tem uma visão muito boa para os negócios, mas acho que não é este o momento para expandirmos. Está chegando a época da seca, quando nossas colheitas caem muito e os animais ficam mais magros, por causa da falta de comida. Se você tem tanto interesse em expandir, espere pela época das chuvas serôdias. Eu até irei com você, para conversarmos com os mercadores.

Quando meu pai falou em "ir comigo", fiquei extremamente irritado! Pensei; melhor, pensei não; respondi de cara!
- Pai, você está achando que sou um retardado, um idiota? Desde quando precisei de um tutor para fazer as coisas, principalmente para negociar? Meu irmão nunca saiu da sua aba, ele nunca foi à cidade. Pelo contrário, sempre ficou aqui, cuidando das colheitas, do feno dos animais. Ele não tem ambição alguma! Já eu, não! Quero conhecer o mundo, negociar, atingir o topo do mundo!

O pai, muito triste, respondeu:
- Filho, eu compreendo sua ansiedade. Sei que você está numa idade em que é necessário aprender mais da vida, expandir seus horizontes, explorar novos desafios. Mas este não é o momento para fazer isso! Você vai jogar seu dinheiro fora à toa! Filho, por favor, não faça tamanha tolice! Espere até o tempo das chuvas serôdias! Escute o que estou lhe dizendo!

No entanto, em vez de ouvir o sábio conselho do meu pai, só ouvia o murmúrio lúgubre da cidade chamando o meu nome. Respondi asperamente ao meu pai:
- Não adianta, pai! Quero o que me cabe na herança! Quero meu dinheiro para investir e negociar com os mercadores! Vou à cidade, e ninguém vai me impedir!

Percebi que meu pai ficou muito triste, mas eu só conseguia enxergar o futuro diante de mim: negociações, esquemas para viagens dos mercadores, mercadorias, mulheres. Enfim, tudo o que o dinheiro pudesse pagar. Ele foi até um quarto escondido em seu quarto, trouxe uma bolsa cheia de ouro e outra cheia de prata e as colocou diante de mim, sobre a mesa. Com lágrimas jorrando de seus olhos, disse:
- Meu filho, saiba que estou destruído dentro de mim, de tanta tristeza em vê-lo partir. Mas saiba que sempre estarei de braços abertos, esperando por você. Nunca esqueça que eu o amo, independente do que venha a acontecer!

Apesar de ver as lágrimas rolando de seus olhos e de ver seus lábios se mexendo, falando comigo, não prestei a menor atenção no que ele disse. Minha atenção estava toda naquelas sacolas de ouro e prata e no que elas poderiam me proporcionar. Meu irmão? Sei lá, eu o vi à porta do celeiro, mas nem conversei com ele. Não queria perder meu tempo falando com ele. Seria pura perda de tempo.

Montei em meu cavalo, que havia comprado ao sul de Canaã, próximo à Arabá. Meu pai achou que fora loucura ter comprado um animal tão caro, principalmente porque ele só servia de montaria, mas não para o arado. Mas, depois de uma volta com ele pelo campo, percebeu o quanto era bom montá-lo. Era um animal veloz, elegante, forte. Galopava tão veloz que o vento era como se fosse uma parede, forçando o meu corpo para trás, quase me lançando para fora de seu lombo.

Depois de três dias de viagem, avistei a cidade. Era linda, imponente, intimidadora. Ela parecia não dar muitas chances ao erro, mas dava importância a quem acertava. Ela ignorava os perdedores, mas exaltava os vencedores ao extremo do céu! Conheci vários mercadores, negociadores, imigrantes vindos de diversas partes do mundo: assírios, persas, medos, arábios, egípcios, ismaelitas, damascenos, samaritanos. Com eles, várias mulheres de iguais nacionalidades, de belezas estonteantes.

Na primeira noite na cidade, negociei a remessa de cem ovelhas para Damasco, vindas da Arabá, em um comboio ismaelita. Custaram cem siclos de prata. Segundo os damascenos, "foi uma pechincha"! Como presente, eles me deram vinte siclos de prata e duas mulheres egípcias, que haviam recebido como parte do pagamento de um negócio no Egito. Eram lindas, altas, robustas, apesar de esguias. Naquela noite, gastei dez siclos em bebidas e comidas exóticas, não só com aquelas egípcias, mas também com alguns amigos que conheci ali.

No dia seguinte, conheci negociadores arábios, com quem negociei a remessa de dois ômeres de cereais para a Assíria, que custariam quinhentos siclos de prata. Dessa remessa, eu recebi trinta siclos pela negociação e receberia mais trinta siclos no ato da entrega, pois iria com os mercadores para lá.

Só que, no dia seguinte, veio uma tempestade de areia tão violenta, que a caravana ficou presa na cidade por cinco dias. Quando ela, enfim, enfraqueceu, toda aquela safra de cereais havia se perdido, pois os silos, onde estavam estocados, desabaram. Os camelos dos mercadores morreram. O dinheiro que eu havia recebido de meu pai tinha acabado. Ou seja, tudo destruído!

Depois de duas semanas, fui à procura dos mercadores com quem havia negociado, mas eles já haviam ido embora, levando com eles as egípcias da primeira negociação. Resolvi, então, voltar à estalagem onde eu estava hospedado, mas seu dono dissera que só poderia entrar se pagasse, pelo menos, uma semana adiantado. Como não tinha mais dinheiro comigo, fiquei perambulando pela cidade, que agora parecia um lobo faminto, prestes a devorar-me. Andei por várias milhas para fora da cidade, quando encontrei uma fazenda que criava porcos. Ah, sim, meu cavalo arábio? Ele morreu na tempestade de areia também…

Quando eu cheguei a tal fazenda, encontrei um homem. Apresentei-me a ele e ele disse que era o dono dela. Perguntei-lhe se ele tinha algo para eu fazer, pois havia perdido todo o meu dinheiro na cidade, por causa da tempestade de areia. Ele disse que, a princípio, só tinha vaga para cuidar dos porcos dele. Aceitei prontamente. Fui cuidar dos porcos daquele homem. Eram cerca de cinquenta porcos, chiavam, reclamavam, fediam… Quando fui colocar a comida deles, aquelas bolotas bolorentas, me deu um aperto no estômago, mas não de nojo, era de fome… De repente, senti saudades de casa; mais particularmente, do meu pai. Foi neste momento em que, pela primeira vez, orei:
- Senhor, pela primeira vez estou procurando por Ti e por Teu perdão. Abandonei meu pai por causa da minha ganância, por querer conhecer o mundo e, por querer ser mais esperto que os outros, acabei com toda a herança que meu pai me dera e agora estou aqui, cuidando desses porcos, que pertencem a um estranho, e quero comer as frutas e a comida que eles estavam comendo.

- Como eu queria estar entre os empregados do meu pai! Eles têm comida de sobra, comida boa e não restos. Nem mesmo os animais do meu pai comem sobras; pelo contrário, eles têm o melhor pasto, a melhor ração, a água mais fresca, o feno mais macio.

- Quer saber, Senhor? Vou tomar coragem e pedir a meu pai para me contratar como um de seus servos, pois, depois de tudo o que fiz contra ele, não sou digno de chamá-lo de pai, pois não mereço ser filho dele. Ele sempre foi justo, digno e amigo dos necessitados. Eu não tenho dignidade, desperdicei toda a minha herança e só fui amigo de ladrões e de trapaceiros. E, justamente estes, que me abandonaram.

Mal terminei de orar, tomei um susto. Era o dono dos porcos, com os braços cruzados e os olhos marejados. Ele disse, como a voz embargada:
- É, seu pai é um homem de sorte! Quem dera se meus filhos tivessem a hombridade de pedir perdão por cada erro que cometem! Só sabem dizer que eu estou errado quando erro, mas eles mesmos não admitem quando erram! Filho, vá em paz! Que o Senhor o acompanhe e o guarde de todo o mal! Que Ele prepare o coração de seu pai para recebê-lo de braços e coração abertos!

O dono dos porcos me deu algumas roupas antigas, um cantil com água e uma bolsa com algumas moedas de prata e alguns pães e um pote com pasta de figos e mel. Tomei rumo em direção ao norte, de volta à fazenda de meu pai, com o coração apertado de medo, mas disposto a enfrentar tudo e a todos, inclusive meu pai. Como a jornada iria durar por volta de três dias, resolvi viajar somente durante o dia e descansar nas cavernas à noite, para me proteger dos bandidos e dos animais ferozes. Quando o sol estava se pondo, resolvi parar numa caverna bem próxima à estrada. Ali orei novamente, agradecendo a Deus pela chance de estar voltando para a casa de meu pai. Mesmo que ele não me receba de volta, mesmo assim vencerei o medo de ser rejeitado. Sinto até mesmo que Deus está mais próximo de mim agora…

O sol está despontando e chegou o momento de voltar à minha jornada. Nem percebi o quanto minha roupa estava suja e fedida. Acho que ursos andaram dormindo na caverna onde eu dormi. Ou será que foram leões… De qualquer forma, vou seguir viagem. Nem percebi o quanto foi rápido. De repente, ouvi balidos familiares e mugidos bem comuns aos meus ouvidos. Até mesmo o som do rio, que corria ao lado da estrada, chamava pelo meu nome e me dava boas-vindas.

Ao longe vi duas coisas que fizeram meu coração estremecer: a velha casa de meu pai e MEU PAI! Vejo que ele ergue seus olhos em minha direção e começando uma corrida bem rápida em minha direção. Quando, enfim, nos encontramos, não tive outra reação do que parar e esperar pelo pior. Ele, por sua vez, quando me viu, somente dizia:
- Meu filho! Ah, meu filho!

Eu gaguejei e disse:
- Por favor, não me trate assim! Não mereço tal tratamento! Eu te fiz sofrer, quase te matei, desperdicei anos de seu trabalho! Não me trate assim!

Ele respondeu:
- Como assim, meu filho? Você é meu filho, estava morto, mas agora está vivo! Pensei que nunca mais iria ver teu lindo rosto de novo, mas eis aqui você, meu filho!

Eu disse o que estava em meu coração:
- Olhe, meu senhor, não tenho mais dignidade de ser chamado de "filho" pelo senhor. Então, peço ao senhor que me contrate como um de seus empregados, pois, somente assim, viverei. Se for do seu consentimento, quero que o senhor me trate assim, como um de seus empregados.

Meu pai, pelo contrário, chamou todos os seus empregados e lhes ordenou que trouxessem roupas novas, sandálias novas e um anel que tinha seu brasão desenhado nele. Então ele declarou:
- Homens e mulheres que moram em minha casa, venham até aqui! Vejam, meu filho, que estava morto, reviveu! Ele estava perdido, longe do meu coração, mas agora está aqui, bem ao meu lado!

Nem tive tempo de me mexer! Os empregados da casa do meu pai me abraçaram, me beijaram, tiraram os trapos que estava vestindo e me vestiram com as roupas novas, que meu pai ordenou que trouxessem para mim. Depois, calçaram as sandálias em meus pés. Quando eu estava vestido e arrumado, meu pai disse ao novo cuidador dos animais:
- Sabe aquele vitelo que eu pedi a você para separá-lo? Prepare-o, pois todos nós celebraremos hoje. Mande chamar todos os nossos vizinhos, para celebrarmos a ressurreição de meu filho!

Mas nem todos estavam felizes com minha volta. Ao longe, vi meu irmão. Ele meneou a cabeça e seguiu em direção à horta. Aquilo apertou meu coração, mesmo quando meu pai me abraçou fortemente, quase quebrando minhas costelas, e me dizendo:
- Filho, não se preocupe com seu irmão. Ele também sofreu muito com sua partida. Queria ter ido atrás de você, para trazê-lo de volta, nem que fosse pelos cabelos. Não o permiti, pois eu queria que você aprendesse por você mesmo, pois é necessário que você assuma a administração dos meus bens.

- Seu irmão é ótimo agricultor, mas você tem ótima visão de negócios. Era necessário que você aprendesse a esperar pelo momento certo de investir, e sua experiência o ajudou a aprender isso. Mesmo que seu irmão o rejeite neste momento, depois ele compreenderá e verá que você fez o melhor, não apenas para você, mas para todos nós.

Durante o jantar, não vi meu irmão em casa. Depois de alguns momentos, também percebi que meu pai não estava lá. Depois de uma hora ou pouco mais, vi que meu pai estava entrando em casa, acompanhado por meu irmão. Vi que ele relutou um pouco em vir falar comigo, mas depois, disse, com os olhos transbordados de lágrimas:
- Meu irmão, meu querido irmão! Como doeu no meu coração ver você partindo, não só por causa de nosso pai, mas por causa de você mesmo! Como é bom ver você de volta à nossa casa! Por que você fez isso? Meu irmão querido, não faça mais isso! Não suportarei perdê-lo novamente!

Aquela foi a melhor noite da minha vida e, a partir desse dia, o nome "pródigo" pode também ter um novo significado: uma "possibilidade de nova vida". Agradeço a Deus por isso!

Baseado em Lucas 15.11-32.